Solenidade de São João Batista

Dia Mundial dos Pobres
15 de junho de 2018
Van Drivers Have fun with Many Various Job Possibilities
20 de junho de 2018

Solenidade de São João Batista

(Lc 1,57-66.80)
João: mais que um nome!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Igreja, quando recorda na sua liturgia os santos, o faz geralmente como memória do dia de sua morte, pois essa indica a sua entrada na verdadeira vida, como dizia Santa Teresinha: “Não morro, entro na vida”; na verdade, a morte para o cristão é o momento de mergulhar definitivamente no Mistério Pascal de Cristo. Contudo, por estarem muito intimamente relacionadas, a Igreja também celebra três natividades, isto é, a de Maria, de João Batista e de Jesus. Dada a importância do acontecimento celebrado, mesmo coincidindo com o Domingo (como o presente ano), é permitido que se celebre a Natividade de São João Batista. O filho de Isabel e Zacarias não é apenas precursor de Jesus no nascimento, mas o foi também na morte, uma vez que esta é considerada um verdadeiro martírio por causa de sua fidelidade à missão recebida de Deus. Como Jesus foi martirizado pela sua fidelidade ao Pai, assumindo todas as consequências da missão, assim também João Batista foi condenado à morte porque não traiu a verdade que Deus lhe confiou para ser proclamada.

Seguindo a tradição judaica, o recém-nascido recebia oficialmente o seu nome no momento de sua circuncisão, oito dias depois do parto. Na Bíblia, o nome de uma pessoa não é um título artificial que se lhe impõe, mas é algo que está relacionado à sua identidade, revela e indica o essencial de sua missão, por isso, muitas vezes aquele que é chamado recebe um nome novo. De acordo com a lógica natural, o filho é dos pais, pois eles o geraram, por isso a expectativa dos parentes e vizinhos que o menino fosse chamado de Zacarias: “Queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias”. Porém, além dos fatores biológicos da união dos pais, mesmo sendo anciãos, e o agravante da esterilidade da esposa, sobressai o poder de Deus que guia a história da humanidade, e para o qual nada é impossível. Conscientes de que o menino é, antes de tudo, um dom de Deus, os pais abdicam do seu direito natural e fazem a grande proclamação de que esse seu filho é uma dádiva de Deus: “Ele vai se chamar João… seu nome é João”. Como já acenamos, na tradição Bíblica quando o nome é dado por Deus indica uma eleição especial em vista de uma missão importante na História da Salvação.

Os parentes e vizinhos testemunham que “Deus cumulara Isabel com sua misericórdia”. Literalmente no grego: “(Deus) engrandeceu (fez uso largo, abundante: emegálynen) a sua misericórdia para com ela”. Contudo, essa imensa misericórdia de Deus não alcança apenas Isabel e o seu marido, mas se estende a todo o seu povo e à humanidade, porquanto o menino não pode ser chamado pelo nome do seu pai, pois isso restringiria a graça de Deus apenas àquele casal. O “menino será chamado João”, isto é, “Deus é misericordioso” (hebraico: jehohanan). A misericórdia de Deus, segundo a tradição veterotestamentária, está sempre relacionada à Aliança, por isso tantas vezes o refrão: “sua misericórdia passa de geração em geração sobre os que o temem” (Sl 103,17). Se os vizinhos vêm apenas no nascimento do menino um favor de Deus para com aquele casal, Isabel e Zacarias proclamam com o nome dado ao filho que a misericórdia de Deus vai para além de uma graça concedida a eles, mas é expressão do seu amor infinito e universal, de sua fidelidade eterna.

Maria, na casa de Zacarias, em diálogo orante com Isabel, acabara de cantar no seu Magnificat: “Sua misericórdia perdura de geração em geração… Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia” (Lc 1,50.55). O nascimento de João é uma prova atual e concreta dessa profecia cantada pelos lábios de Maria. Mais tarde, o próprio Zacarias, no seu Benedictus também proclamará a mesma verdade: “para fazer misericórdia com os nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada” (Lc 1,72). Nessas duas profecias, misericórdia e aliança se identificam.

A misericórdia de Deus além de estar intimamente relacionada à sua fidelidade à aliança, também é apresentada com uma linguagem muito concreta: útero, entranhas, onde o amor gera a vida e se compromete com ela. Por isso, esta grande proclamação do Deus misericordioso por ocasião de um nascimento. Zacarias ainda no seu cântico também usa expressões afins: “amor entranhável (grego: splanchna eléos: literalmente entranhas de misericórdia, amor visceral. Lc 1,78). E este amor torna-se o conteúdo de todo louvor a Deus, é o seu motivo principal. Por isso, João não abre apenas o útero da sua mãe ao nascer, mas também a boca do seu pai: “Imediatamente a boca de Zacarias se abriu, e ele começou a louvar a Deus”. O seu nascimento não é apenas um fato biológico, mas um acontecimento importante na História da Salvação, pois reitera a revelação daquilo que é a essência de Deus, a sua misericórdia. Este acontecimento, por conseguinte, torna-se boa “notícia que se espalhou por toda a região montanhosa da Judeia”.

Celebrar a Natividade de São João Batista não é fazer uma festa de aniversário de uma pessoa importante, mas é proclamar as grandezas da misericórdia de Deus em favor do seu povo. Não se canta “parabéns para João”, mas se proclama a salvação de Deus para todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *