Solenidade de São João Batista

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Solenidade de São João Batista

(Lc 1,57-66.80)
João: mais que um nome!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

A Igreja, quando recorda na sua liturgia os santos, o faz geralmente como memória do dia de sua morte, pois essa indica a sua entrada na verdadeira vida, como dizia Santa Teresinha: “Não morro, entro na vida”; na verdade, a morte para o cristão é o momento de mergulhar definitivamente no Mistério Pascal de Cristo. Contudo, por estarem muito intimamente relacionadas, a Igreja também celebra três natividades, isto é, a de Maria, de João Batista e de Jesus. Dada a importância do acontecimento celebrado, mesmo coincidindo com o Domingo (como o presente ano), é permitido que se celebre a Natividade de São João Batista. O filho de Isabel e Zacarias não é apenas precursor de Jesus no nascimento, mas o foi também na morte, uma vez que esta é considerada um verdadeiro martírio por causa de sua fidelidade à missão recebida de Deus. Como Jesus foi martirizado pela sua fidelidade ao Pai, assumindo todas as consequências da missão, assim também João Batista foi condenado à morte porque não traiu a verdade que Deus lhe confiou para ser proclamada.

Seguindo a tradição judaica, o recém-nascido recebia oficialmente o seu nome no momento de sua circuncisão, oito dias depois do parto. Na Bíblia, o nome de uma pessoa não é um título artificial que se lhe impõe, mas é algo que está relacionado à sua identidade, revela e indica o essencial de sua missão, por isso, muitas vezes aquele que é chamado recebe um nome novo. De acordo com a lógica natural, o filho é dos pais, pois eles o geraram, por isso a expectativa dos parentes e vizinhos que o menino fosse chamado de Zacarias: “Queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias”. Porém, além dos fatores biológicos da união dos pais, mesmo sendo anciãos, e o agravante da esterilidade da esposa, sobressai o poder de Deus que guia a história da humanidade, e para o qual nada é impossível. Conscientes de que o menino é, antes de tudo, um dom de Deus, os pais abdicam do seu direito natural e fazem a grande proclamação de que esse seu filho é uma dádiva de Deus: “Ele vai se chamar João… seu nome é João”. Como já acenamos, na tradição Bíblica quando o nome é dado por Deus indica uma eleição especial em vista de uma missão importante na História da Salvação.

Os parentes e vizinhos testemunham que “Deus cumulara Isabel com sua misericórdia”. Literalmente no grego: “(Deus) engrandeceu (fez uso largo, abundante: emegálynen) a sua misericórdia para com ela”. Contudo, essa imensa misericórdia de Deus não alcança apenas Isabel e o seu marido, mas se estende a todo o seu povo e à humanidade, porquanto o menino não pode ser chamado pelo nome do seu pai, pois isso restringiria a graça de Deus apenas àquele casal. O “menino será chamado João”, isto é, “Deus é misericordioso” (hebraico: jehohanan). A misericórdia de Deus, segundo a tradição veterotestamentária, está sempre relacionada à Aliança, por isso tantas vezes o refrão: “sua misericórdia passa de geração em geração sobre os que o temem” (Sl 103,17). Se os vizinhos vêm apenas no nascimento do menino um favor de Deus para com aquele casal, Isabel e Zacarias proclamam com o nome dado ao filho que a misericórdia de Deus vai para além de uma graça concedida a eles, mas é expressão do seu amor infinito e universal, de sua fidelidade eterna.

Maria, na casa de Zacarias, em diálogo orante com Isabel, acabara de cantar no seu Magnificat: “Sua misericórdia perdura de geração em geração… Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia” (Lc 1,50.55). O nascimento de João é uma prova atual e concreta dessa profecia cantada pelos lábios de Maria. Mais tarde, o próprio Zacarias, no seu Benedictus também proclamará a mesma verdade: “para fazer misericórdia com os nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada” (Lc 1,72). Nessas duas profecias, misericórdia e aliança se identificam.

A misericórdia de Deus além de estar intimamente relacionada à sua fidelidade à aliança, também é apresentada com uma linguagem muito concreta: útero, entranhas, onde o amor gera a vida e se compromete com ela. Por isso, esta grande proclamação do Deus misericordioso por ocasião de um nascimento. Zacarias ainda no seu cântico também usa expressões afins: “amor entranhável (grego: splanchna eléos: literalmente entranhas de misericórdia, amor visceral. Lc 1,78). E este amor torna-se o conteúdo de todo louvor a Deus, é o seu motivo principal. Por isso, João não abre apenas o útero da sua mãe ao nascer, mas também a boca do seu pai: “Imediatamente a boca de Zacarias se abriu, e ele começou a louvar a Deus”. O seu nascimento não é apenas um fato biológico, mas um acontecimento importante na História da Salvação, pois reitera a revelação daquilo que é a essência de Deus, a sua misericórdia. Este acontecimento, por conseguinte, torna-se boa “notícia que se espalhou por toda a região montanhosa da Judeia”.

Celebrar a Natividade de São João Batista não é fazer uma festa de aniversário de uma pessoa importante, mas é proclamar as grandezas da misericórdia de Deus em favor do seu povo. Não se canta “parabéns para João”, mas se proclama a salvação de Deus para todos.

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